Já faz algum tempo que a transformação digital deixou de ser uma opção para se tornar um imperativo no mundo dos negócios. E quando falamos em transformação digital, não estamos nos referindo à mera compra e instalação de tecnologias digitais, como era comum até a primeira década do novo milênio.

A sociedade tem mudado seus hábitos rapidamente e inovação não se trata mais apenas de expor produtos e serviços em prateleiras virtuais na internet para aumentar as vendas. Agora virou uma questão de adotar novas mentalidades. Não por luxo, mas por manutenção de competitividade.

Segundo Silvio Meira, transformação digital estratégica é um processo de aculturação através do qual indivíduos, times e organizações são levados a mudar incrementalmente de comportamentos e estruturas analógicas para uma ecologia de plataformas digitais. Infelizmente, muitas empresas ainda acreditam que a transformação digital tem como protagonista a aquisição de novas ferramentas. Não poderiam estar mais equivocadas.

Silvio Meira | Crédito: Leo Caldas

Nos últimos dois anos, nenhuma tecnologia especial foi inventada, no entanto houve uma aceleração digital de pelo menos meia década. O que teria mudado no período? O comportamento das pessoas, que, forçadas por uma pandemia, precisaram conviver com a supressão de parte do espaço físico e rapidamente passaram a utilizar com mais frequência o espaço digital para transações, trabalho, aprendizagem e socialização.

A observação de alguns indicadores dão a dimensão do tamanho da transformação no período pandêmico. A participação do e-commerce no varejo brasileiro, por exemplo, levou de 1999 a 2019 para chegar a 6%. Em 2020 saltou para 10%, incorporando, inclusive, novos setores que até então não marcavam grande presença digital. A mudança foi sentida pelos negócios, que foram afetados severamente pela transformação digital dos mercados e descobriram – através de uma crise – que era preciso acompanhar – e rápido – as dinâmicas de um mundo cada vez mais figital. Tudo mudou. E muito provavelmente para sempre.

BREVE HISTÓRICO DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL 

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O processamento de dados passou a fazer parte da infraestrutura empresarial a partir dos anos 70. Desde então, tem sido investido em tecnologias da informação e comunicação, mas sem muita criatividade. O que podemos observar até os anos 2000 é a utilização desses recursos para a simples digitalização de processos. Ou seja, transpor processos analógicos sem romper com nenhuma estrutura para o ambiente digital.

O primeiro sinal de necessidade de transformação digital surgiu em 1995, quando a internet comercial começou a alterar o comportamento das pessoas em relação ao mercado. O digital first plantava ali uma semente que viria a se desenvolver paulatinamente nos anos seguintes com usuários redesenhando seus processos para o mundo figital face a oferta de smartphones e posteriormente com a popularização da nuvem na última década, que zerou a necessidade de capital para criação de novos serviços digitais. 

Para Silvio Meira, a década passada já foi de transformação digital, ou seja, a combinação de inovação digital com transformação estratégica, que traz como exigência o redesenho das teorias dos negócios para dar conta não só das rupturas dos mercados, mas do comportamento das pessoas em relação ao consumo e ao trabalho. 

O ponto em que nos encontramos é o da confirmação de uma tendência irreversível percebida nas últimas duas décadas, a de que tudo será figital: mercados, empresas, times, pessoas, cidades, países, governos. Se 2010 é um marco da primeira grande transformação digital, 2020 tem tudo para ser a segunda – e última – dos negócios, com a consolidação desse ambiente figital – em que o mundo físico é expandido pelo digital e orquestrado pelo social.

“Quem não conseguir competir em espaços figitais, não conseguirá sequer competir. Mas inovação, adaptação e evolução continuarão essenciais para sempre, até porque sempre foram, pelo menos para negócios que causam e sobrevivem a mudanças. Agora, serão inovação, adaptação e evolução digitais contínuas, em rede”, alerta Silvio Meira.

TRANSFORMAR É CRIAR OPORTUNIDADES

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Tudo – pessoas, negócios, mercados, enfim – está em rede. Conectado. Os dados que trafegam a todo instante podem ser coletados, analisados e enriquecidos para tomadas de decisão em tempo quase real, permitindo que os processos de mudanças driblem antigos indicadores de performance analógicos obtidos com atraso. 

As plataformas digitais têm possibilitado evoluções fluidas e ininterruptas. É como se nada estivesse completamente pronto. Nunca. O digital, por ser programável, é mutante e tudo ao redor evolui. Mesmo que seu negócio não faça nada, o mercado se transforma irrefreavelmente. 

Adequar-se a este cenário permite que as empresas acompanhem as mudanças e estejam devidamente posicionadas para mudar conforme o contexto fluido. Por isso, transformar é quase sinônimo de aprender. Aprender com a experiência, aprender com os dados. E neste processo, enquanto muitos enxergam problemas, outros – não por coincidência os mais bem sucedidos – encontram oportunidades.

QUERO TRANSFORMAR… MAS COMO?

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Os negócios que ainda não se movimentaram para migrar do analógico para o figital estão em risco. A previsão de Silvio Meira é de que muito em breve não será mais possível fazer uma transição devidamente planejada, através de pequenas rupturas, entre os dois estados. Para o cientista-chefe da TDS, chegará o momento em que o tempo para transformação será escasso e as organizações, ao se virem obrigadas a promovê-la de maneira abrupta, causarão grandes impactos negativos nos próprios negócios, podendo até mesmo destruí-los. 

“É preciso estruturar, articular e executar movimentos de aculturação digital com foco em inovação nos negócios. Inovação é mudança de comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e consumidores de qualquer coisa. É fundamental a promoção de contato entre indivíduos, times e organizações com a cultura digital, através de vivência com experiências próprias desse contexto”, orienta Silvio Meira. 

A incorporação de uma cultura digital nos processos decisórios e de execução é o desafio número 1 de negócios que ainda não adentraram no futuro figital. Sabemos que não se trata de um processo tradicional com começo, meio e fim. O mundo figital está sendo reescrito o tempo todo através de códigos que alteram mercados, comportamentos… e o próprio código. 

É por isso que – tomando mais uma vez emprestada as palavras de Silvio Meira -, se a sua organização pretende ser protagonista do seu próprio futuro figital, é preciso que ela se transforme, o tempo todo, à frente de todo o mercado.