Cientista-chefe da TDS Company escreveu artigo sobre o tema para o Diario de Pernambuco, o jornal mais antigo em circulação na América Latina. Hoje, 4 de outubro, é celebrado o dia de São Francisco de Assis. Confira o artigo na íntegra:

Francisco era João, de Pedro, e criava startups

O cientista Sílvio Meira, uma das maiores referências em tecnologia no Brasil, apresenta as lições de São Francisco sobre inovação e empreendedorismo

Francisco de Assis, o santo, na verdade nasceu João. Idealizou e empreendeu um dos startups mais bem-sucedidos da história, os Franciscanos. E deixou lições imprescindíveis sobre inovação e empreendedorismo com responsabilidade social, das que podem ser aprendidas por todos, através do exemplo dado pelo grande cristão há 800 anos. A associação entre um religioso medieval e inovação talvez cause espanto. Mas a história revela que a transição pela qual a sociedade passava no século XII tem paralelos à que vivemos no séc. XXI. Grandes mudanças transformavam a Europa e Assis.

Nosso Francisco nasceu Giovanni di Pietro em 1181, na região que mais tarde formaria a Itália. João de Pedro em bom português. Mas o que pegou, com o tempo, foi seu “nome social”. Giovanni virou Francisco porque o pai, comerciante de tecidos, sempre o chamou de Francesco, “homem livre”, ou “francês”, que achava mais elevado, próprio ao destinado a herdar os negócios de panos finos da família.

Mas um dia, no comércio da casa, chegou um pedinte a interromper uma negociação e irritar Francisco. Finda a transação, o arrependimento pela raiva com o pobre homem toma conta do adolescente, que sai à sua procura e lhe entrega a renda do dia. A ira do pai deixa nosso futuro empreendedor em grande dificuldade, preso entre a riqueza do lar e a pobreza do mundo.

Aí começa a transição de Francisco, na alta idade média [entre 1.000 e 1.300], um dos períodos de maior agitação da história, dos pontos de vista econômico, social, familiar e religioso. Múltiplas ondas de inovação substituíam o regime feudal pelas cidades, a relação senhorial pelas associações de trabalho e negócios, o livre comércio global surgia em centros como Veneza e Gênova, as finanças eram redesenhadas em Florença, a primeira universidade da Europa era fundada em Bolonha, enquanto um cisma abalava Roma e uma guerra destruía Milão, tudo isso ao redor de Assis.

A Renascença, que se segue a tais eventos, mudará a sociedade de tal forma que o nível de riqueza da região só será alcançado por boa parte do mundo no século XIX, mais de 500 anos depois.

Silvio Meira, cientista-chefe da TDS Company | Crédito: Leo Caldas


Por um lado, era mais liberdade e oportunidade; por outro, injustiça, conflitos, corrupção, violência -como as Cruzadas, movimento beligerante de base religiosa- e fome: libertar-se do vassalato, sem terra ou habilidades para [sobre]viver nas cidades, teve consequências similares ao fim da escravidão sem reforma agrária e educação universal de qualidade no Brasil. Degradação, exclusão, miséria e fome.

Com tal provocação da realidade e cúmplice do momento e movimento histórico ao redor, Francisco, no lugar certo, com os motivos e revolta certos, transforma sua vida em vocação. Como líder e peão, descobre – ou cria – e empreende a missão de criar e manter a esperança das pessoas, em especial dos despossuídos. Pra começar, se livra de todas as posses.

Ao não se conformar com o mundo como ele era e, mesmo sem educação religiosa – tentando e errando para aprender… -, ou dominar as lógicas de poder das estruturas eclesiásticas – e por isso mesmo desafiando o status quo para mudar o equilíbrio do lugar -, estabelece a Ordem dos Frades Menores, um startup de 1209. Três anos de aprendizado depois, ajuda Chiara Offreduccio, também de Assis, a criar as Clarissas em 1212. Duas ordens castas. Às quais muitos casais queriam se associar e para quem Francisco – sempre focado nas pessoas e suas necessidades e demandas – cria a Ordem Terceira, em 1221.

Qual é o legado de Francisco? Hoje, mais que nunca, a realidade é uma provocação. Jamais houve tanta riqueza ou tivemos tantos recursos. Mas em tempo algum houve tanta gente passando fome. São 810 milhões de pessoas no mundo, segundo a ONU; 33 milhões são brasileiras. Num país que desperdiçará 27 milhões de toneladas de alimentos este ano, comida suficiente para 100 milhões de cidadãos. Uma provocação humanitária que deveria despertar vocações empreendedoras, das que resolvem problemas do mundo.

A Business Roundtable é uma das associações corporativas mais relevantes do planeta. Há 30 anos declarou que a missão dos executivos seria criar valor para os acionistas. Em 2019, o grupo veio a público afirmar que tal ideia estava absolutamente ultrapassada.

O papel dos líderes e dos negócios, defende agora, é o da promoção de uma economia que sirva a todos, pois o direito ao sucesso através do trabalho, da criatividade e de uma vida permeada de significados e dignidade é universal.

Para alcançar este objetivo, é preciso criar trabalho de qualidade para todos. Recriar a economia de tal forma que, além de forte, seja sustentável. É primordial promover inovação, reoxigenando o ambiente de negócios, os mercados, os negócios e o planeta.

Francisco é um santo do nosso tempo. Porque as Ordens, seus startups, começaram uma tradição de justiça social. Trataram grandes problemas que persistem hoje: guerra, pobreza, corrupção, exclusão social e a cada vez mais dantesca e absurda concentração de renda. A mensagem franciscana carrega uma simplicidade óbvia e poderosa: não podemos viver bem enquanto os outros sofrem. Não podemos nos banquetear enquanto os outros têm fome.

Tratando tais ideais como pilares da missão e bases de seus startups, Francisco deixou seis grandes lições. Primeiro, seja fiel a si mesmo; não só tenha coerência nas ideias mas também consistência nas ações. Segundo, crie e acredite no seu destino – todos criadores de novos negócios deveriam fazer isso. Terceiro, abrace e acolha a todos, suas dores e demandas. Quarto, viva com alegria, até para gerar a energia que enfrenta o sofrimento e a tristeza do mundo. Quinto, tenha uma relação corajosa com o poder – Francisco jamais teria criado a Ordem se a Cúria o intimidasse. Por fim, seja uma ponte entre as diferenças e leve a paz onde houver conflito e violência.

Estas bases do empreendimento franciscano – uma das mais antigas instituições do planeta – se aprendidas por muitos, especialmente pelos empreendedores e pelos mais privilegiados, podem ser as fundações de uma geração de líderes e negócios que cuidam das pessoas e da natureza, da qual Francisco é o Santo Protetor. E não são ensinamentos complexos, de quase impossível execução. Basta vontade, humildade e humanidade. Grazie, Giovanni.