Empresas não inovam porque gostam. Empresas inovam para sobreviver. No mundo figital, a manutenção da viabilidade do negócio é uma tarefa complexa, pois cenários mudam com rapidez e ideias criativas trazem soluções capazes de gerar mercados e mudar o comportamento da sociedade, tornando a inovação parte fundamental de qualquer empreendimento.

Ainda assim, a inovação não é um fim, mas um meio. Um meio através do qual os negócios se deslocam para o futuro de forma a ser capaz de oferecer às pessoas o que elas esperam e desejam. Mesmo sendo tão importante para os negócios, porém, muitas empresas deixam de tratar a inovação de forma continuada, seja por não entender o grau de sua importância para a sobrevivência econômica, seja por não compreender fundamentos básicos da inovação.

Tomando emprestado uma definição de Peter Drucker, inovação é a mudança de comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores de qualquer coisa. O conceito é antigo, mas permanece atual, especialmente em um contexto de pressão constante para evolução e adaptação às rupturas que desafiam a norma.

Para as empresas que não dão a devida importância para a inovação, a má notícia é que as chances do negócio eventualmente dar errado são altíssimas. Para as empresas que desejam inovar, mas não sabem como, ainda há tempo de construir o próprio futuro. 

Aqui vamos tratar de três elementos fundamentais para esta jornada: pessoas, espaço e tempo. 

PESSOAS E PERSONAS

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Segundo dados apresentados no SXSW, maior festival de inovação do mundo, verificou-se um enfraquecimento das empresas especializadas em um único setor. A tendência é que, cada vez mais, o que será vendido é a experiência com as marcas através de serviços e produtos diferentes. Se já era importante conhecer o cliente, daqui por diante será mais do que fundamental.

As pessoas no espaço figital estão se relacionando com empresas a todo momento. Seja frequentando uma loja física, seja pesquisando soluções para suas demandas na internet. O consumidor está cada vez mais bem informado, exigente e demandando das empresas entregas personalizadas, para só então optar por fazer transações com a marca escolhida dentre várias que oferecem o mesmo serviço.

Oferecer uma experiência que impacte as pessoas e as converta em clientes demanda entender quais os desejos delas no presente. E, para continuar competitiva, é preciso estudar os contextos e ser capaz de prever como esses desejos se transformarão no futuro. O cliente muda, a empresa também precisa mudar. Com inovação.

O método consagrado  para conhecer os usuários de produtos e serviços é o de personas, criado nos anos 80 por Allan Cooper. Trata-se de  um personagem fictício criado para representar o perfil de potenciais usuários de um produto (buyers personas) e de pessoas que já utilizam o produto (users personas).

“Criar personas ajuda a entender as expectativas dessas pessoas. Personas ajudam a reconhecer que pessoas diferentes têm necessidades e expectativas diferentes ao criar afinidade com esses personagens, como acontece nos filmes ou livros, quando criamos empatia pelos personagens”, diz Silvio Meira, cientista-chefe da TDS e professor do MiST.

Silvio Meira durante webinar sobre o metaverso

Personas não descrevem pessoas reais, mas perfis personalizados para entender os padrões que sintetizam os tipos de indivíduos para as quais se pretende oferecer produtos ou serviços. 

Ao construir uma persona, a organização terá mais facilidade para fazer perguntas certas e respondê-las de acordo com as pessoas. Importante registrar que, assim como produtos e serviços, personas estão em constante mudança e devem ser aprimoradas com métodos qualitativos e quantitativos de forma continuada.

Avaliando as variações do método que emergiram a partir da proposta inicial de Cooper, identificamos um conjunto de questões que são essenciais para construção de personas: tipo, nome, faixa etária, perfil socioeconômico, onde e como vive, além dos hábitos e comportamentos. Elas podem ser respondidas de duas formas: quantitativamente, através de pesquisas; e qualitativamente, por meio da experiência do time com os perfis de pessoas que pertencem ao contexto do projeto.

Um exemplo de persona: “Tatiana Sousa, CEO de uma empresa de investimentos, 35 anos, moradora do centro de São Paulo. Possui mestrado em administração e gosta de fazer cursos de pequena e média duração para se manter atualizada”. Repare que fazer perguntas a esse perfil torna mais fácil o entendimento sobre que tipo de experiência a empresa deve estar pronta para oferecer, tanto no presente, quanto no futuro.

ESPAÇOS E CENÁRIOS

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“Um cenário para inovação é antes de tudo um lugar, ponto de partida para encontrar pessoas”, conta Silvio Meira. Na era figital, onde o físico é expandido pelo digital e orquestrado pelo social, este local não é delimitado de maneira concreta. Pode ser uma rua por onde passam carros cujos motoristas avistam o negócio, ou lugares mais complexos, como uma rede social digital frequentada por milhões de usuários. Espaço aqui entendemos como um um ambiente de referência que orienta a identificação de pessoas que irão apontar para as oportunidades de inovação.

Os lugares dos quais partem a inovação podem ser conhecidos e mais próximos do negócio, onde os agentes e seus comportamentos são familiares, ou mais ousados, quando a empresa deseja uma ruptura maior e mira um espaço totalmente desconectado do negócio. 

Na era figital, os espaços tendem a ser múltiplos, combinando-se de diversas formas, sem jamais ser apenas físico. As pessoas, hoje, dependem cada vez mais de infraestruturas e serviços habilitados através de plataformas digitais e sociais. 

TEMPO E CULTURA

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Através do estudo do passado é possível compreender o presente e planejar melhor o futuro. Inovação está intimamente ligada ao amanhã, mas é a profunda compreensão do passado que permitirá uma melhor leitura das condições que o presente oferece para a transformação. 

Compreender o caminho das ideias no decorrer do tempo nos ajuda a identificar a evolução do comportamento, hábitos, pensamentos e desejos das pessoas. Cada povo tem uma formação histórica particular da qual derivam perfis particulares. É por isso que manifestações culturais, religiosas ou políticas são tão diferentes nos quatro cantos do mundo. 

“Na construção de cenários para inovação deve-se tratar o tempo como um mecanismo de criação de oportunidades. No passado de um certo ambiente pode estar a chave para que se entenda movimentos presentes e as tendências futuras das pessoas que o frequentam”, defende Silvio Meira.

A partir do conhecimento histórico – ou seja, não apenas uma leitura fria do passado, mas a compreensão do que ocorreu no passado e é compartilhado pela percepção da sociedade no presente – podemos identificar com mais facilidade os traços da cultura local, ou seja, como as pessoas de terminado tempo e lugar coletam, transmitem, compartilham e compreendem as informações.

E isso nos leva de volta às pessoas. (Se é que em algum momento deixamos de falar delas). Conhecer a cultura das pessoas com as quais o negócio se relaciona é, enfim, a ferramenta básica para explicar um um cenário para a inovação. A partir daí é possível elaborar hipóteses e experimentá-las sem descolar da realidade contextual da sociedade.