Professores, estudantes e sociedade como um todo devem refletir sobre as mudanças necessárias ao modelo escolar tradicional, incapaz de acompanhar as demandas do mundo figital e engajar estudantes

Atire a primeira pedra quem nunca foi chamado à atenção pelo professor em sala de aula por conversar com o colega durante a explicação da famigerada “menos bê mais ou menos raiz de delta sobre dois a”. “Pra que eu vou usar Bhaskara?”, lamentava o estudante, que não raro recebia do mestre a resposta mais desanimadora que pode ouvir um jovem ávido por encontrar sentido no conhecimento: “vai cair na prova”.

A anedota – longe de querer menosprezar a importantíssima resolução que o matemático indiano demonstrou para equações quadráticas – serve para ilustrar um problema que a educação enfrenta de forma sintomática na maior parte do mundo: a crise do modelo de escola fundamentado em sala de aula diante de um mundo figital.

O conteúdo que preparamos é dedicado para todas as pessoas, mas especialmente para o professor que tem visto o estudante perder o interesse pela aula. Não garantimos uma solução mágica, mas iremos apontar algumas propostas de educação mais adequadas à contemporaneidade.

A ESCOLA MEDIEVAL

Abadia beneditina de Whitby, Inglaterra

Umberto Eco, em seu romance histórico O Nome da Rosa, narra a história de uma abadia beneditina que mantém os livros trancados a sete chaves em sua biblioteca. O conhecimento, considerado perigoso, era reservado aos mais privilegiados monges e, mesmo estes, estavam sujeitos a severas punições caso mantivessem com a leitura uma postura crítica, questionadora. Ao aluno cabia apenas assimilar e repetir aquilo que o mestre doutrinava, sob pena de ser considerado um herege, um pecador. [Pecado, inclusive, tem origem no latim peccatum, que significa “sair do caminho”, em tradução livre].

As escolas que conhecemos hoje são heranças das escolas medievais, influenciadas pela cultura monástica. A sala de aula, delimitada entre muros, submete os estudantes a uma clausura onde a relação com o professor, verticalizada, se dá monologicamente. O conteúdo é transmitido para ser ouvido, assimilado e repetido. Não surpreende que esta lógica – castradora da imaginação e da descoberta – tenha dificuldade para engajar o aluno, ainda mais em um mundo conectado, em rede, acelerado, onde problemas antigos desaparecem na mesma medida que outros problemas surgem demandando novas soluções.   

Mas nem sempre foi assim.

A ESCOLA NA ANTIGUIDADE

Acrópole de Atenas, Grécia
Acrópole de Atenas, Grécia

Muito antes dos monastérios estabelecerem um novo paradigma de escola, dois exemplos de espaço para construção de saber se destacavam na Antiguidade: a Academia de Platão e a Escola Peripatética, de Aristóteles. Ambas guiavam o aprendizado dos alunos através de reflexões sobre problemas reais. A elaboração de perguntas era tão importante quanto as respostas. 

Mestres e discípulos circulavam em espaços abertos, sem muros, criando uma rede dialógica onde o conhecimento poderia ser construído coletivamente.

A ESCOLA FIGITAL

“A escola figital valoriza a construção do conhecimento por meio da colaboração, onde as pessoas aprendem uma com as outras. Trata-se de uma instituição que se encontra em um momento de redefinição de seus dogmas e certezas, e, indo além, coloca a própria incerteza como motor de aprendizagem, tal qual o modelo socrático, e que rompe com a tradição monástica medieval que encerrava o conhecimento entre muros de uma sala de aula, que perdura até hoje”, diz André Neves, professor de Design da UFPE e cientista associado da TDS Company.

A proposta de escola figital – a dimensão física expandida pelo digital e orquestrada pelo social – existe em franca oposição à escola que entendemos hoje como tradicional, desconectada do mundo de possibilidades em rede já percebido e incorporado pela grande maioria dos estudantes. Eles já aprenderam a aprender em rede, de e com outras pessoas, usando plataformas abertas e conectadas, onde cada um e cada grupo decide, a partir de hipóteses de aprendizado, o que aprender.

“A educação existe desde que nós, humanos, existimos. Fomos abstraindo a escola de tal maneira que ela virou um discurso. Uma autoridade. O professor fica na frente e discursa para os estudantes. Depois eles regurgitam esse discurso em forma de resposta na prova. Basicamente uma repetição. Essa escola dogmática, fechada no espaço da sala de aula, foi industrializada e passou a aspirar o treinamento de pessoas em escala, o que tirou de vez o espaço para o diálogo”, diz Silvio Meira, cientista-chefe da TDS Company. 

Esse modelo de escola penetrou na sociedade sem grandes crises até o surgimento da internet. O ambiente “caótico” promovido pela rede entre pares criou modelos que passaram a competir com o currículo engessado das salas de aula. Estudantes, mais jovens, aprendem a usar a internet mais rapidamente que os professores e encontram lá educadores – não necessariamente professores – capazes de tornar acessível as soluções para as questões submetidas aos mecanismos de busca na rede.

ESTAMOS DIANTE DO FIM DA ESCOLA?

Image by Drazen Zigic on Freepikcoronavirus lockdown.

A escola figital não representa o fim da escola. Muito pelo contrário. Ela é a possibilidade de resgatar o interesse dos estudantes e desconstruir o obscurantismo medieval herdado das escolas monásticas. É preciso redescobrir como engajar os estudantes. 

Segundo pesquisa publicada pela Gallup,  95% dos estudantes do ensino fundamental nos EUA estavam engajados com a escola. No ensino médio, o número cai para 15%. Ou seja, precisamos de uma reforma social que modifique radicalmente o paradigma escolar.

Não basta migrar o mesmo modelo de ensino para salas de aula online sem recorrer aos princípios, fundações, estratégias digitais e poder das redes. Do contrário, apenas repetiremos simulacros de uma sala de aula anacrônica.

Escolas dialógicas adotam posturas didáticas invertidas, onde o mestre não responde, mas pergunta, incentiva os aprendizes a explorar o espaço das informações para construírem, juntos, conhecimento. Um ponto de partida interessante é a flexibilização dos currículos, adaptando-os às aspirações das pessoas. Não se aprende aquilo que não se aspira aprender.

Tal sistema pode parecer mais desordenado do ponto de vista da produção de conhecimento, mas já não são raros os profissionais competentes que se muniram de habilidades técnicas para a resolução de suas demandas autonomamente através de canais de  vídeos digitais, onde há laboratórios e oportunidades de aprendizado. 

A escola figital representa tampouco o fim da sala de aula [a sala de aula enquanto espaço, ao menos]. Afinal, experimentar no espaço físico laboratórios de física, robótica ou química, bem como a sociabilidade da escola continuarão sendo experiências importantes. 

O que a escola figital deve abolir é a condição da sala de aula como locus primordial do encontro entre as pessoas, pois já é [e será ainda mais] possível distribuir o conhecimento e os protocolos de aprendizagem em rede, permitindo que cada pessoa aprenda no seu tempo. 

STRATEEGIA, UMA PLATAFORMA PARA HABILITAR EXPERIÊNCIAS FIGITAIS NA EDUCAÇÃO

Exemplo de jornada em strateegia

A escola figital, distribuída na sociedade habilitada pela internet, é uma escola social baseada em plataformas digitais. “Na escola conectada tudo está pronto para mudar o tempo todo e portanto, para ser descoberto, construído. Expandida pelo digital, a escola conectada é ubíqua, está em todo lugar e em todo tempo, o tempo todo”, explica Silvio Meira. “Plataformas digitais criam a possibilidade de habilitar cada aprendiz a seguir seu curso de aprendizado, no seu tempo, sem que para isso haja uma demanda economicamente inviável de apoio humano. Porque as plataformas, programáveis, podem criar escala para a performance humana”, continua.

strateegia, por exemplo, é uma plataforma de compartilhamento e construção coletiva de conhecimento para dar suporte a colaborações criativas no espaço figital. Em strateegia, comunidades e organizações podem desenvolver aprendizados e construir estratégias em torno de desafios, a partir de dinâmicas de divergência e convergência de forma assíncrona, iterativa e incremental por meio de brainwriting e encontros remotos.

Desenvolvida a partir de experiências teóricas e práticas consolidadas ao longo de mais de 20 anos no âmbito da aprendizagem, criação de produtos e serviços e transformação de negócios, strateegia é uma ferramenta versátil que pode se adaptar a diversas necessidades e contextos, inclusive o do resgate do interesse genuíno do estudante pelo professor em um mundo figital.