Definindo o Metaverso aponta dez características fundamentais e identifica contradições das propostas apresentadas até então pelas Big Techs; eBook está disponível gratuitamente para download

Há 30 anos Neal Stephenson publicava Snow Crash, romance de ficção científica cyberpunk no qual pessoas lidam com um vírus transmitido por imagem da tela do computador ao nervo óptico. Quando processado pelos neurônios, o malware danificava o cérebro. Pela primeira vez, o mundo se deparava com o termo metaverso.

A metáfora de Stephenson é essencial para nos ajudar a compreender este espaço. Estaremos em algum lugar do metaverso no momento em que for possível criar um elemento virtual capaz de nos afetar diretamente na dimensão física. Parece algo trivial,  mas a dificuldade em definir o metaverso somada à miríade de interpretações equivocadas dão a dimensão da complexidade do tema.

Desde 1992, teóricos buscam estabelecer bases conceituais para o metaverso, mas só recentemente o termo caiu na moda e capturou de vez a imaginação popular. Afinal, o avanço acelerado das tecnologias tem permitido às pessoas se relacionarem com o tema mais como uma possibilidade viável no futuro do que como uma mera abstração intelectual. A consequência deste hype, porém, fez do metaverso mais um ingrediente “do grande liquidificador social de ideias vagas”, nas palavras de Silvio Meira.

Silvio, que é cientista-chefe da TDS e professor extraordinário da CESAR School, publicou o ebook “Definindo o Metaverso”, no qual reúne dez pontos que considera fundamentais para entender este novo espaço que deve impactar radicalmente as nossas relações e percepção de mundo em um futuro breve (ou não tão breve assim).

O professor aceitou nosso convite para falar sobre a publicação e explicar como os teóricos e as Big Techs estão lidando com – segundo Matthew Ball – a “rede massiva e interoperável de mundos virtuais renderizados em tempo real, que podem ser experimentados de forma síncrona e persistente por um número efetivamente ilimitado de usuários com um senso de presença individual e onde dados relacionados a identidade, histórico, direitos, objetos, comunicação e pagamentos existem de forma contínua”.

TDS CompanyVocê tem desenvolvido bastante nos últimos anos o conceito figital – resumidamente o espaço físico sendo ampliado pela dimensão digital e orquestrado pelo social. O metaverso seria o exemplo figital por excelência?

Silvio Meira – O metaverso será figital por excelência, se e quando houver um metaverso. Por enquanto o metaverso é uma hipótese. O que vai acontecer do ponto de vista da nossa percepção da realidade é que iremos nos relacionar com a dimensão digital através de um processo de intermediação que talvez não controlemos o tempo todo. Além disso, nossas ações na dimensão física/digital influenciarão nossas relações e interações com pessoas e coisas que estão representadas ali.

O exemplo que eu gosto de usar é o da partida de futebol, onde dois times, cada um em seus estádios, podem contar com uma projeção do time adversário no metaverso. A bola, conectada nos dois espaços, responderá ao que acontece em cada campo em tempo real. A torcida online – ou na TV, se ela ainda existir -, por sua vez, poderá comprar um ingresso para participar do jogo. 

Perceba que se trata de projeções capazes de ativar um conjunto de percepções relacionadas aos nossos sentidos, permitindo que transcendamos o universo tridimensional puramente físico ao qual estamos acostumados. É por isso que experiências como as que usam óculos de realidade aumentada não são “o” metaverso, apesar de serem divulgadas como tal. Se você pegar os dez pontos fundamentais do metaverso no ebook, verá que não existe nada hoje que chegue próximo.

Não há sequer “metaversinhos”?

Não. O que temos são experimentos extremamente rudimentares que são rotulados de metaversos por uma combinação de marketing e mídias propaladas por seus inventores ou proponentes. Não tem absolutamente nada por aí que seja interoperável, ou seja, que permita ao usuário ter uma identidade na plataforma A que também serve para interagir na plataforma B. Então é preciso desqualificar esses experimentos. Podemos chamá-los de hipóteses ou ensaios. Mas nada disso que está aí é “o” metaverso.

Uma vez estabelecido o metaverso, de que forma iremos transcender a tridimensionalidade e acessá-lo?

Quando tivermos um conjunto de dimensões físicas, sociais e digitais que efetivamente componham um espaço figital no qual as pessoas possam navegar, interagir, se relacionar. Não por meio de 30 logins ou identidades, mas através de avatares. Eu sou eu no metaverso. Ainda não sabemos qual será a tecnologia capaz de nos fazer entrar no metaverso. Pode ser um chip de interface implantado em você, em mim, um óculos de realidade aumentada muito mais capaz do que os que temos hoje, um capacete, um conjunto de sensores no corpo, ou até mesmo uma inteligência ambiental cujo conjunto de sensores de vídeo, som e presença nos leve até lá. 

O metaverso terá um proprietário?

O metaverso não será feito por uma companhia apenas. Será como a internet que conhecemos hoje, habilitada por muitas empresas e pessoas, mas que é uma só (retirando, obviamente, os filtros que certos países autoritários introduziram). 

Parece ser caro. As pessoas poderão acessá-lo ou será uma experiência exclusiva para poucos? 

Primeiro precisamos colocar em perspectiva o que está envolvido. Para que tenhamos uma percepção de sincronicidade entre as dimensões físicas e digitais, o tempo de resposta do mundo percebido – a combinação do abstrato com o concreto – precisa ser inferior a oito milissegundos. Mais do que isso, já interpretamos como uma simulação, com seus devidos atrasos, e o mundo – o metaverso – deixaria de parecer real.

5G apresenta um tempo de resposta de rede de 8 a 12 milissegundos, sem contar o tempo que os servidores lá do metaverso levariam para processar informação. Ou seja, funcionando bem e no limite, a latência esperada para 5G está no  limite do que seria aceitável para criar experiências virtuais verdadeiramente imersivas. Mas ainda não há tecnologia capaz de dar conta, em um ambiente massivo como o metaverso – nem mesmo só do ponto de vista de computação e comunicação – da proposta teórica de valor que imaginamos para esta dimensão do espaço.

Estamos falando de coisas fantásticas, como por salas de operação virtuais, imersivas, indistinguíveis da participação no espaço físico de hoje, onde professores de medicina poderiam ministrar aulas práticas paraalunos do mundo inteiro, de forma síncrona. É algo que, agora, não apenas é impossível como também caríssimo.

O processo é análogo ao que vimos com a evolução de computadores pessoais. Na década de 80, quando eles apareceram, tinham de 32kb a 256kb de memória; os de maior capacidade custavam o preço de um carro, falhavam várias vezes por dia e sequer tinham uma tela gráfica. Hoje compramos laptops de 16GB, com muito mais recursos e por pouco mais de R$ 3 mil. Assim como levamos mais de 30 anos para tornar o computador razoavelmente acessível e funcional, assim será com o metaverso. Levará tempo e ainda não sabemos quanto.

Essa perspectiva é interessante, porque a percepção contemporânea do tempo está mal acostumada com a aceleração digital. A humanidade experimentou a transformação na maior parte da história de forma lenta, mas nos últimos anos testemunhamos tudo mudar rapidamente.

Exatamente. O metaverso é algo tão acima da internet – do ponto de vista de capacidade, funcionalidade, interfaces, das demandas por segurança da informação – que ele não vai surgir tão cedo. Existirá, inclusive, uma fase em que certas pessoas terão dinheiro para adquirir tecnologias para entrar no metaverso, mas não terão à disposição a rede, no seu lugar, pois o metaverso não é local, é global. Será preciso não apenas ter os componentes que habilitam cada um, mas fazer parte de uma rede global que conecta gente do mundo inteiro.

Você citou uma operação em tempo real a serviço da medicina como exemplo de metaverso funcionando em seu potencial. E quanto a possibilidades extremas que ponham em risco a humanidade, como construir cidades inteiras com dados de georreferenciamento para fins beligerantes? Será possível também?

Não precisamos nem ir tão longe assim. Podemos pegar, por exemplo, uma pessoa com um marcapasso. Se ela tiver um avatar que a represente com um certo nível de resolução, provavelmente o marcapasso estará lá também. Se alguém for capaz de invadir o marcapasso virtual, basta acelerar a batida para, talvez, causar um ataque cardíaco. Isso está totalmente dentro do cenário possível e é bom a gente perder nossa ingenuidade sobre o que pode rolar ou não no metaverso.

Quando pensamos em ambientes habilitados por tecnologia, em qualquer condição, há uma questão básica a ser feita, para saber tanto do lado benigno quanto maligno da coisa: quem vai usar? Com certeza não serão só as pessoas de boa-fé ou com interesse genuíno no progresso e desenvolvimento da humanidade. Uma mera faca é um artefato que serve tanto para cortar um alimento como para matar alguém.

Um dos fundamentos do metaverso é a persistência. Quando você fala que o componente virtual do metaverso continua existindo e evoluindo internamente mesmo quando não há ninguém interagindo com ela, o que isso quer dizer? Suponhamos um caso extremo em que os usuários ficam sem conexão por uma pane global. Ainda assim a dimensão continua evoluindo? De que forma?

Acontece da mesma forma que nas redes sociais. Não é preciso estar ativo para sua timeline continuar sendo construída. No metaverso, será possível deixar um avatar interagindo com outros, mesmo quando o usuário não estiver conectado. Imagine seu avatar em um show, um espaço onde muitas pessoas se encontram e interagem. Pode ser que a inteligência artificial por trás do avatar seja capaz de  travar conversas como se fosse você. A principal diferença em relação às redes sociais, é que, além de palavras e imagens, os avatares poderão interagir de fato. As consequências teóricas e práticas disso são um grande mistério, com alguns sinais, já, de que não será fácil lidar com a complexidade do problema.

Já podemos elaborar algo sobre oportunidades de negócios no metaverso?

Imaginemos que eu sou um varejista e coloco uma loja no metaverso. Se eu já tenho uma presença digital em que as pessoas podem comprar, digamos, cerveja e eu posso mandar para a casa delas, por que eu vou aumentar o custo computacional de rede de comunicação ou de transação, se eu já consigo fazer a venda de forma mais barata através de um aplicativo?

Para entender as oportunidades no metaverso, a primeira coisa é rever a definição de inovação. Inovação é a mudança no comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e consumidores de qualquer coisa. Logo, as oportunidades do metaverso necessariamente precisarão explorar possibilidades inovadoras. No exemplo que utilizamos, eu devo ser capaz de vender minha cerveja ao seu avatar no metaverso e, quando ele tomá-la, ser capaz de transmitir para você, na dimensão física, o sabor e a sensação de um gole refrescante.

Nos autodenominados metaversos propostos por aí, não existe nada parecido com isso. O que existe são meras virtualizações. Quem quer que ensaie possibilidades de negócio no metaverso precisará necessariamente oferecer um produto ou serviço que seja percebido pelas pessoas como mais fácil, ágil e eficaz naquela dimensão, impactando diretamente em seus hábitos e comportamentos.

Se as pessoas passarem a perceber o metaverso como uma dimensão eficaz e forem, em peso, para lá, teremos uma grande onda de inovação, provavelmente radical, global e duradoura.

Algo ligeiramente parecido com o Second Life?

Não. O Second Life até tem uma economia interna, mas apenas dez milhões de usuários. Não foi algo que capturou a imaginação do planeta.

Quando se fala na capacidade do metaverso estimular nossos sentidos através de um avatar capaz de transmitir sensações reais para o mundo físico, como o sabor de uma cerveja, estamos lidando com uma abstração conceitual ou uma possibilidade viável?

Os sentidos, a grosso modo, são sistemas de captura de informação do universo ao seu redor para posterior transmissão ao cérebro, que a processa. Há pessoas, por exemplo, que têm menos sensores de percepção de calor e consequentemente mais resistência ao sol – o que não quer dizer que sua pele não queime. Ou seja, se for possível capturar certas informações do ambiente virtual e jogá-las diretamente no cérebro, ele vai processá-las e fazer você sentir qualquer sensação que seja, como o gosto da cerveja. 

Agora, claro, isso nos leva a uma pergunta não trivial: se a humanidade conseguir criar tal coisa, isso vai afetar a percepção da realidade? Sim, sem sombra de dúvidas. Com que consequências? Descobriremos, talvez, mais cedo do que tarde.

Seríamos capazes de enganar nosso cérebro. Poderíamos tratar alcoolistas no metaverso, satisfazendo-os com aquela cerveja.

Sim. Mas também será possível, em tese, fazer uma pessoa achar que está sem sede por tempo prolongado e matá-la desidratada. Como estamos falando de uma manipulação em larga escala, teremos consequências absolutamente não triviais e potencialmente catastróficas.

Será possível fazer downloads de bibliotecas inteiras e aprender instantaneamente o conteúdo dos livros como se os tivesse lido? 

Há um conjunto de possibilidades bastante claras de como fazer isso. A gente já sabe como apagar neurônios e de como introduzir certos bits de informação em neurônios nas memórias das pessoas. Dependendo do tipo de interface que estiver disponível, poderemos ter ambientes onde é possível aprender “sem estudar”.

Aprender – e já existem muitos estudos sobre isso – é basicamente programar os neurônios com exercícios de visualização, percepção, tentativa e erro, e assim por diante. Não há absolutamente nada que evite, estruturalmente, que o usuário possa instruir seu  avatar a ir a uma biblioteca e, lá,  ler livros. Se as devidas conexões existirem, o usuário também estará, ao mesmo tempo, lendo os mesmos livros.

Isso vai levantar questões sobre a possibilidade de estender a capacidade do cérebro humano elaborar a mente – partindo do pressuposto que a mente resulta de processamento de informação pelo cérebro. Quando olhamos para esse cenário, podemos imaginar um conjunto muito grande de possibilidades, inclusive sem precisar de metaverso. Basta que haja uma interface capaz de escrever informação nos neurônios.

Agora se a gente imagina um avatar visitando uma biblioteca virtual, capaz de aprender, com o usuário correspondente aprendendo também enquanto faz outra coisa no mundo físico, aí estamos falando de metaverso.

As Big Techs têm debatido bastante o metaverso. Na sua visão, as proposições delas estão alinhadas com os fundamentos que você elenca no ebook?

O problema das Big Techs de agora é tentar imaginar e criar, elas próprias, a próxima geração da internet. Como será isso? A internet como hoje, só que em cima de blockchains? É uma internet completamente diferente, onde há um aumento da percepção do mundo? É como um mundo mais virtual, em terceira dimensão, em oposição à internet de agora, plana, baseada em telas? Será que se a gente botar uma terceira dimensão perceptível da realidade, ela representará com “mais fidelidade” o mundo concreto e essa característica a tornará melhor do que o que temos hoje?

Quando se pensa nestes futuros possíveis, é bom notar que as telas das naves espaciais imaginadas pelos autores de ficção científica até muito recentemente  são todas bidimensionais. Você não tem um modelo tridimensional de apresentação do universo por lá.

Independentemente do que as Big Techs estão tentando fazer, há um número muito grande de pequenas companhias que não tem qualquer responsabilidade com os seus usuários de agora – porque não têm usuários – que estão tentando criar a próxima geração da internet baseada em sistemas descentralizados e distribuídos sobre código aberto, parcialmente escritos pela comunidade. Ou seja, a utopia da rede começou de novo, depois de ter sido destruída pelas grandes empresas de tecnologia. 

Basicamente, a utopia do começo da internet desenhava uma rede ampla, global, distribuída, onde as pessoas iriam participar em condições de igualdade e com possibilidade de retorno sobre os seus investimentos da mesma forma que empresas e investidores. 

A verdade é que se criou o maior surto de diferença entre pobres e ricos da história da humanidade com alguns poucos zilionários criando companhias que valem trilhões. Riqueza essa resultado da exploração de pessoas que trabalham em plataformas e não conseguem sequer manter condições decentes de alimentação, moradia, vestuário e educação.

Tem alguma coisa profundamente errada nisso, principalmente no modelo americano de desenvolvimento de negócios digitais. É um verdadeiro faroeste sem qualquer regulação. Existe essa ideia de que as companhias podem fazer tudo, pois têm condição tecnológica para tanto.

Isso não é verdade e já passou do tempo dessas companhias serem reguladas. Nós já sabemos de muita coisa a esse respeito, a ponto de estabelecer premissas básicas para as fundações e regulação de qualquer coisa que venha a ser o metaverso, sejam quais forem as empresas participantes:  tem que ser descentralizado, distribuído, interoperável, massivo, ter níveis de interfaces que possibilitem o acesso de pessoas com níveis diferentes de competências e renda, e deve habilitar a participação de cada um como consumidor e produtor ao mesmo tempo, sem a radical exploração de indivíduos pelas plataformas que vemos nas redes sociais de hoje.

Uma vez estabelecido, quais as características do metaverso governos e indivíduos devem dedicar maior atenção?

Primeiramente, e se fizer sentido, se obedecem aos dez fundamentos listados no ebook. Do contrário, estaremos lidando com uma farsa. O outro ponto diz respeito aos governos não travarem os processos de inovação das proposições ao mesmo tempo em que devem estabelecer fundações regulatórias para que nenhuma companhia detenha o monopólio do metaverso.

Caso isso exista, teremos um totalitarismo capitalista. Alguém terá toda a terra, no caso a digital, e as pessoas serão constrangidas a habitar e pagar os tributos desta terra ao suserano, numa espécie de feudalismo tecnológico. Se a gente tiver uma dúzia de companhias controlando tudo, é porque deu tudo errado novamente.

Hoje, na internet, duas empresas, uma de busca e outra de rede social,  capturam 80% dos anúncios no ocidente. Isso é reflexo de uma falha no sistema regulatório, que não determinou a interoperabilidade de plataformas e travou a possibilidade de haver competição efetiva e soluções de nicho ou regionais. O que temos hoje é resultado do efeito winner takes all do faroeste digital, pois todos tiveram que ir pra mesma plataforma porque já existia uma massa crítica de pessoas lá.

Com interoperabilidade, poderíamos ficar numa plataforma de dez mil pessoas e, por meio de uma interface com outras plataformas, estabelecer relações por lá e efeitos de redes entre as nossas plataformas. As pessoas precisam entender os elementos de captura que estão no jogo para que não se deixem capturar. É sempre bom lembrar: quando o usuário não paga nada para usar um serviço digital, é porque é ele mesmo o produto que está sendo negociado e entregue à luz do dia. E quando você é o produto, os seus direitos humanos são literalmente subtraídos.

É preciso entender como funcionam os algoritmos que passaram a controlar as nossas vidas em rede. Ainda há muito pouca compreensão sobre isso. As pessoas estão sendo tangidas como gado de um cercado para outro sem fazer a menor ideia do que está acontecendo. Ficam balbuciando coisas como se fossem agentes independentes quando na realidade são zumbots – uma combinação de zumbis e robots – controlados pelos algoritmos ao redor. Basta olhar e ver a quantidade de usuários manipulados por uma combinação de algoritmos e sua relação com o populismo autoritário nas redes sociais.

O argumento da liberdade de expressão seria uma espécie de falácia para justificar a ausência de regulação?

Já faz cerca de dez anos que o maior lobby do Capitólio, nos Estados Unidos, é o da indústria digital americana. Não se trata de uma organização que trabalha para fornecedores e consumidores de tecnologias digitais terem uma relação equilibrada, mas a favor de um passe livre para exploração das pessoas como produtos digitais. E, como você disse, utilizam o falacioso argumento de liberdade para inovação e evolução. Mas não é essa a realidade. E hoje as coisas chegaram a um ponto em que ser contra esse faroeste coloca você, perante boa parte da massa crítica, numa posição de pessoa retrógrada e contrária à inovação. Foi essa a narrativa construída nos últimos muitos anos por essa indústria.

Uma etapa muito interessante de toda nova ideia é o momento de transição em que os modelos antigos tentam migrar para o novo espaço, sem criar uma linguagem própria. Walter Benjamin falava que quando a fotografia foi criada, as primeiras fotos tentavam resgatar a pintura, retratando paisagens e retratos solenes de pessoas. Como o processo fotográfico era mais rápido que a mão do pintor e o acesso às máquinas se popularizou, abriu-se novas possibilidades para a fotografia, que passou a retratar elementos cotidianos, somando às finalidades estéticas, conotações políticas para as imagens. Nos ensaios de metaverso que temos hoje, que experiência você considera atingir algo mais próximo de original e inovador?

Nada. As marcas estão fazendo como os primeiros fotógrafos. 

A máquina fotográfica, no começo, tinha que ficar parada e as pessoas precisavam posar estáticas, porque era preciso muito tempo para gravar a imagem no filme. As pessoas não imitavam as pinturas apenas porque não sabiam fazer outra coisa, mas porque os limites da tecnologia as obrigavam a isso. Qual foi a proposta que alguma empresa fez de experiência psico-digital, por exemplo? Nenhuma. O metaverso é muito mais sobre nossos cérebros do que sobre as redes e plataformas digitais atuais das empresas de tecnologia.

Usar um óculos 3D sem usar outras formas de interferência na sua capacidade física de perceber o mundo pode deixar muitas pessoas enjoadas. Porque você vai ter uma percepção para um subconjunto dos seus sentidos que não corresponde à percepção de outro grupo de sentidos, o que confunde seu corpo. O processamento de dados sobre a realidade faz nosso cérebro compreender a assincronia tanto do mundo físico quanto digital. Por isso desfiles de moda virtualizados, salas de aulas virtualizadas, hoje, são experiências banais do pré-metaverso.

É essa a nossa aspiração? Recriar o universo inteiro ao nosso redor em baixa resolução? O que eu gostaria de ver mesmo é alguém propor no metaverso uma experiência psico-digital para muitas pessoas – quem sabe, milhões delas – em um show de Cordel do Fogo Encantado capaz de afetá-las fisicamente. Aí sim a gente começa a ter um metaverso.

O metaverso é aberto, descentralizado, distribuído e interoperável. Ao permitir que as pessoas, em rede, dialoguem com  outras redes, de que forma o mercado de trabalho será impactado? Deve-se temer pelo aprofundamento da precarização do profissional?

Eu não sei o que pode acontecer. No meu entendimento, as possibilidades da tecnologia são resolvidas pelas pessoas, culturas e sociedade, em concerto, com a sociedade  usando, aqui e ali, seu poder regulatório.

Repare no caso do trabalhador brasileiro que está na economia do conhecimento e fala inglês. Este profissional pode estar eventualmente exercendo sua função em casa para uma companhia fora do Brasil, através de uma plataforma digital que não precisa de absolutamente nada de metaverso. Ele está simultaneamente fora do alcance do aparato regulatório da geografia da empresa contratante e do local em que ele trabalha. Ou pode estar sujeito aos dois. Se tiver alguma disputa trabalhista, poderá ter que resolver com um conjunto de mecanismos que não necessariamente estará vinculado à legislação brasileira.

O que a internet tem feito – e o fenômeno se acelerou com a pandemia – é deslocalizar, descentralizar, distribuir e dessincronizar o trabalho. Isso porque, na economia do conhecimento, parte significativa do trabalho é o processamento simbólico de informação, que tinha sua tecnologia até então no escritório. Era o gabinete de armazenamento dos documentos a serem analisados, máquinas de escrever e de calcular, computadores. Se isso foi distribuído na rede, a plataforma de trabalho individual virou um laptop. Ou seja, o principal já foi feito. O metaverso pode mudar a qualidade da percepção ou da experiência de rede, de ambiente, de mundo.

A parte “rede”, do trabalho, pode fazer com que você  tenha que se articular com pessoas fisicamente, presencialmente. O que o metaverso pode vir a resolver é tornar essa presença cada vez mais desnecessária. Mas nós não sabemos no momento qual é o grau de resolução que os metaversos vários irão apresentar nos próximos anos. 

Qual será o perfil do trabalhador do metaverso e como deve se dar o seu processo de aprendizagem para garantir sua competitividade?

Na minha imaginação é um vai e vem. Dado o fato de que o ambiente de performance humana foi quase totalmente virtualizado, quase não existe mais para o trabalhador um lugar físico sem competição, uma reserva de mercado geográfica. Em compensação, o profissional pode entregar sua performance para qualquer lugar em que suas competências sejam úteis.

Se o espaço de trabalho passa a ser global, não há nenhuma diferença entre as possibilidades competitivas do trabalhador que se preparou para trabalhar na Finlândia – com o sistema educacional de lá – e o trabalhador de Taperoá, na Paraíba. As consequências disso são imensas, porque se houver excesso de trabalhadores na Finlândia, eles vão procurar trabalho no resto do mundo. Inclusive em Taperoá.

E isso significa, basicamente, que se o aprendizado do trabalhador dos países de segunda classe, como o Brasil, continuar no nível de indigência em que está, o efeito obviamente será de exclusão dos trabalhadores locais de menor competência. Porque, à disposição do mercado local, estarão trabalhadores competentes de todo lugar. 

Mas é lógico que haverá barreiras regulatórias. Imagine um ambiente “made in Brazil”, no metaverso, chamado Mescritório, onde as pessoas de qualquer lugar do mundo podem trabalhar a partir de suas casas. A partir do momento em que profissionais brasileiros não consigam disputar vagas no Mescritório, o estado brasileiro poderia tomar providências para barrar a entrada de estrangeiros lá, do mesmo jeito que, hoje, certos estados nacionais censuram, nas suas fronteiras digitais, meios de informação de seu desagrado.

Como se não bastasse, também é muito fácil barrar fronteiras sociais e digitais do Brasil para plataformas competindo com o Mescritório. E eu imagino, infelizmente, que isso será feito. Não só no Brasil como em outros países que não prepararam seus trabalhadores para competir no mundo figital.

Os países economicamente periféricos tendem a ficar mais excluídos no metaverso.

Toda vez que a intensidade tecnológica das infraestruturas que servem pra gente trabalhar, se divertir, criar valor, etc, passa por uma onda de inovação, aumenta a dificuldade da periferia. Hoje, por exemplo, para as pessoas em regiões do Brasil sem rede de boa qualidade, é impossível ganhar dinheiro com jogos play-to-earn que demandam baixa latência.  Ou seja, é um ambiente de “entretenimento com remuneração” inacessível devido à ausência de infraestrutura contextual no lugar em que você está. Pouco importa, aí, a sua competência.

Com o que temos à disposição agora, como devemos preparar as pessoas para o futuro?

Na minha opinião, através de cinco linguagens: matemática, lógica, programação, o idioma da sua cultura e a língua franca da economia do conhecimento. Hoje é o inglês, amanhã o mandarim.

Matemática é a linguagem por meio da qual é possível capturar e expressar o mundo criando modelos, enquanto a lógica é o que a gente usa como base para criar sistemas de pensamento, teorias. Biologia, química e física são cada vez mais matemática aplicada e sistemas de informação. A engenharia é matemática aplicada. Para construir uma ponte, eu modelo o lugar da intervenção no mundo virtual (pode ser num desenho e fórmulas em papel), incluo a minha “obra” no modelo, usando a linguagem de expressão da minha área da engenharia e, depois de validar que a minha ponte virtual está de acordo com minha realidade virtual, estou pronto para tornar minha intervenção abstrata numa realidade concreta, fazendo uma intervenção de pedra, areia, ferro e cimento no mundo físico. Taí o que os engenheiros fazem para construir uma ponte.

Programação é o que está por trás da economia da informação e do conhecimento. A ponto de quem não programa está sendo programado por alguém, que está por trás de algum algoritmo. A língua da sua cultura é fundamental por razões óbvias, mesmo que você não esteja na região geográfica onde ela mais se concentra. Saber a língua franca do mundo é um meio de deslocalizar o “seu” trabalho, “seu” mercado, para o mundo. Hoje, quem está na economia do conhecimento e fala inglês fluentemente está no mercado global, e não do local.

Sempre que novas possibilidades de interação surgem, há receios quanto ao impacto na sociabilidade. Você acha que o metaverso pode ampliar o isolamento físico entre as pessoas?

Quem fica preocupado sobre se a gente deveria ou não deveria ter criado qualquer coisa é quem faz parte do processo não como criador, mas como criatura de um mundo diferente daquele para o qual foi educado, e com o qual estava acostumado. Quem vai sentir falta do mundo antes de uma nova tecnologia são as pessoas que viveram de outra forma no seu passado. Quando o metaverso chegar, quem nascer depois dele chegar vai achar tudo aquilo, seja lá o que for, natural. Esse processo acontece o tempo todo.

Douglas Adams, autor de O Mochileiro das Galáxias, dizia que tudo o que existe quando você nasce é absolutamente normal. Tudo o que acontece entre você nascer e o seu último nível da educação é uma oportunidade de aprender, de fazer carreira, de criar negócios. E tudo que acontece depois disso é uma catástrofe. Porque você está pronto para uma performance que vem do seu passado e, do outro lado, há gente mudando o mundo. É por isso, aliás, que tanta gente resiste à inovação, em geral. Inovação, em muitos casos, zera o placar e faz o jogo começar de novo, quando uma galera já se chava campeão, eterno, por sinal..

O metaverso deveria ter propriedades como um conjunto de garantias quanto à identidade e à privacidade, que deveriam ser controladas pelo usuário. Como o metaverso deve lidar com robôs e anônimos? Que garantias poderíamos exigir do metaverso para que as irregularidades que já vivenciamos na web sejam diminuídas?

Isso é uma continuidade da problemática que a gente está enfrentando na internet hoje. Há um debate monumental sobre o anonimato das identidades reais nas redes. Quais seriam as consequências para o cidadão de um regime autoritário ter identidade real obrigatória numa rede social? Ele não poderia criticar algo sem correr o risco de ser perseguido.

Esse debate tende a ser aprofundado nos próximos muitos anos e vamos precisar lidar com um conjunto de fundações sobre o que deveria ser a nossa privacidade, que direito temos a ela e sua manipulação, como será o acesso às propriedades digitais, como limitar a visibilidade que outros têm da nossa presença social virtual, etc.

Você não pode entrar na minha casa de qualquer jeito. Mas, por outro lado, o meu endereço é conhecido por agentes de estado. Se a gente vai ter um metaverso que parece muito com a realidade física atual, teremos identidades e propriedades virtuais lá, com as mesmas garantias ou falta delas que temos cá? Isso ainda não está claro. 

Sobre o aparato regulatório que vamos desenvolver, vejo que há um conjunto de normas na internet propostas pela Europa e China que vai influenciar bastante no metaverso e competir com a ausência de regulação existente nos EUA. 

Na economia do metaverso, podemos esperar a redução de papéis tipicamente de estado, como a emissão de moedas? É possível que redes de pessoas conectadas por uma relação de confiança criem ecossistemas próprios capazes de realizar transações no metaverso independentes do sistema financeiro?

Isso já vem acontecendo independentemente do metaverso. Basta olhar para as chains que emitem moeda independente de estado. São regimes onde não é necessário confiar em um terceiro para saber se o que está sendo apresentado como reserva de valor ou instrumento de troca entrega ou não o equivalente a uma moeda emitida por um estado. 

Por outro lado, os estados não vão ficar parados esperando que as suas moedas se tornem irrelevantes. Eles já estão, inclusive, tentando criar moedas digitais de bancos centrais. De mais de um ponto de vista, a gente tem a possibilidade de que certos ambientes virtuais consigam criar uma economia viável e sustentável onde um certo subconjunto das ações se tornem endêmicas e sejam totalmente encapsuladas, ali, dispensando apoio ou mediação externa. 

Existindo um metaverso composto por uma rede de plataformas em ecossistemas coopetitivos e que interagem entre si, será preciso mediar o que é a moeda $X do metaverso X e a moeda $Y do metaverso Y. Logicamente terá que existir um ambiente de trocas e processos ou provedores de garantias. Com isso, o estado sai do processo e as pessoas cuidam de suas próprias transações. Obviamente será preciso introduzir agentes que têm papéis similares aos de estado que vão cuidar, por exemplo, da segurança e da defesa do ambiente. Se, ao fim e ao cabo, aparecer alguma forma de estado, nisso, será um sinal de que o “estado” é um invariante do que chamamos de economias e sociedades complexas.

Será uma empresa que vai cobrar algo análogo a um imposto? No Second Life, Linden Lab cobra algo equivalente ao IPTU sobre os espaços de “propriedade” dos usuários e, recentemente, passou a cobrar “ISS”. É assim que a companhia cobre seus custos de criação, manutenção, operação e defesa do espaço virtual.

Hoje o papel da Linden Lab é igual ao papel de um Estado nacional. Com a diferença que, lá, não há evidências explícitas de corrupção endêmica, como no Brasil e em muitos outros países. O que leva a uma boa provocação, mas para uma outra conversa: será que o estado do futuro é uma companhia?