Quando se fala em digital first no setor da saúde, muita gente imagina médicos sendo substituídos por sistemas que usam inteligência artificial, algo como o que já vemos, por exemplo, nos escritórios de advocacia.

No entanto, Saúde 5.0 não é sobre tratamentos com supertecnologias. Não é nem sobre cuidados de saúde centrados no paciente, defende nosso cientista-chefe, o professor Silvio Meira. “É sobre bem-estar e envolve parcerias, articulações e redes de longo prazo com as pessoas – enquanto ainda não são pacientes, e depois. Depende muito de tecnologia, mas não é tecnologia, que habilita o trabalho e a ação humana”, explica.

O setor de saúde estima que por causa da Covid-19, mais de dois milhões de consultas digitais tenham sido realizadas só no Brasil no ano passado. Num país de mais de 210 milhões de habitantes, segundo o IBGE, dois milhões de consultas parece pouco, mas não é. Principalmente porque o Congresso autorizou a prática em abril último. E só até quando durar a pandemia e seus efeitos.

Médicos e pacientes, por tudo o que se sabe, fizeram bom uso do modo digital de relacionamento, que de resto já usam para quase tudo. Mas o que foi feito – de digital em 2020 – estava no passado, só veio para o presente por causa da emergência.

Meira alerta que os médicos não serão substituídos por inteligências artificiais, como pensam alguns alarmistas. “Mas os médicos que não usam inteligência artificial serão substituídos pelos que usam”, sentencia. Ele sustenta que é só estudar as mudanças que as inovações causaram no passado e pensar. O professor lamenta que forças desse passado, em especial um certo setor que teme a substituição de médicos por sistemas de informação, estejam trabalhando contra os avanços na telessaúde. O risco é que todo esse futuro promissor fique apenas como uma promessa, uma possibilidade e não se concretize.

E explica porquê:

“Inovação social, em grande escala, depende do espaço regulatório, sempre. No Brasil, os reguladores de muitos mercados são essencialmente analógicos e, a depender deles, continuaremos na idade da pedra digital”.

Então, é preciso superar esses desafios e entender os benefícios que a inovação pode provocar no setor de saúde no Brasil, um país em que esses “saltos tecnológicos e comportamentais” podem literalmente salvar milhares de vida.